27/04/2011

Barbárie Civilizatória

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.




Em nossa sociedade altamente modernista. Os lentos não têm vez. Tudo é rápido. Efêmero. As informações voam. Com toda essa pressa não ligamos ou muitas vezes não queremos enxergar o que está diante dos olhos: nós mesmos. Nosso corpo, essa máquina perfeita. Não percebemos a capacidade que temos. Nem chegamos a agradecer pelo dom que é nos dado. Nesse caso, o dom da visão. Você já parou para pensar como seria se de repente não conseguisse mais ver? Se diante de você viesse apenas um clarão branco, como um mar de leite? Você no carro, andando pela rua, amarrando o cadarço, estudando para a prova de amanhã. Entre uma piscada e outra, você se torna cego. Já pensou nisso? Como seria, não ver? Se tornaria vulnerável, não é? Fraco, submisso, medroso. Por quê? O que nos olhos há que sem eles não conseguimos viver? Em minha percepção os olhos são uma das armas mais poderosas existentes. Sabemos tudo que ocorre ao nosso redor, pois olhamos. Podemos reclamar se vem cabelo na comida, se o troco vem errado, conseguimos desviar de um buraco na calçada, sentimo-nos livres. A palavra é essa: liberdade. A visão nos dá liberdade infinita. Sem a visão nos sentimos presos, necessitamos da ajuda do outro. Somos como, bonecos. À idéia de cegar: como agiríamos, como sobreviveríamos?
No livro de Saramago: “Ensaio sobre a Cegueira” é relatado tudo isso e muito mais, de uma maneira minuciosa de como o ser humano se torna submisso ao fato de não ver. Como o ser humano sem os olhos não julga as pessoas pelo o que possuem. Por que julgaria, quem estará ali para olhar: qual tipo de roupa você usa? Qual tipo de jóia você obtém? Quem me diga quem? Somos julgados e julgamos pelos olhos. Isso é fato. Sem eles, onde o julgamento se encaixa? Sem os olhos o capitalismo fica de lado. Há uma diferença entre olhar e ver, por mais parecidas que sejam. O olhar no sentido de percepção visual, uma conseqüência física do sentido humano da visão. O ver como uma possibilidade de observação atenciosa, de exame daquilo que nos aparece à vista. Se podes ver, repara. O reparar não é nada mais do que se desprender da superficialidade da visão para aprofundar o interior do que é o homem e, finalmente, conhecê-lo.
No decorrer do livro percebe-se o quanto a barbárie e a civilidade tomam conta desse ser humano. Em que se desce aos mais baixos extremos da barbárie, mas sempre atentando para momentos de solidariedade e de compaixão, ou seja, para momentos em que o reparar se torna fundamental.  O limite entre civilização e barbárie é rompido em uma sociedade altamente capitalista. No caso, do século XX. Luta-se pela sobrevivência, o instinto animal toma conta. Também há uma sociedade igualitária, sem distinção entre negros, brancos, ricos, pobres, homens, mulheres...
A cegueira apresentada por Saramago pode ser encarada como um sintoma da alienação do homem em relação a ele mesmo. Faz com que os homens percam a consciência de si, se deformem, se massifiquem, assemelhando-os a uma mercadoria. Há uma revisão de valores e uma tomada de consciência a respeito da situação do homem enquanto cidadão terráqueo. Isso porque, é possível haver humanização por meio do resgate da memória, da solidariedade e por meio também da perda das máscaras sociais, que alienam e aprisionam

25/04/2011

Ego -> Gregarismo

“Na verdade ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra.” (José Saramago)

Imagine você no Titanic. Isso mesmo. Reveja a cena do pânico das pessoas correndo para salvar suas vidas. Se ponha nesse momento de desespero. Em busca de um colete salva vidas. Você procura, procura... No fim, consegue achar um. Porém, perto de você e à procura de um também, há uma senhora de mais ou menos 70 anos. O que você faz? Dá a ela ou fica? Que pensamentos surgem a sua cabeça? Você pensa em alguma coisa ou simplesmente age? Quer se salvar, não é? Sei que escolhe se salvar primeiro do que àquela pobre senhora a sua frente. Triste? Não. Necessário. A maioria das pessoas agiria da mesma forma, diria que 99%. Raros aqueles que colocariam sua vida em segundo lugar para salvar uma senhora desconhecida. Você é novo, têm muitos caminhos pela frente a trilhar. Ela tem 70 anos, já passou por muitas coisas na vida. Você pensou nisso. Na hora do desespero não há tempo para ser hipócrita (por favor).
Com esse gesto você pode ser considerado egoísta, por pensar em si depois no outro? Não, você foi prudente. Seguiu o procedimento padrão. É orientado que nesses casos você se salve para depois salvar o outro. Senão, irá comprometer dois salvamentos: o seu e do outro. Cuidar de si antes de cuidar do outro tem um quê de altruísmo. Ao cuidar de nós mesmos, tiramos do outro essa responsabilidade e, ainda por cima, ficamos bem para ajudar quem precisa. Entretanto, se após conseguir o colete, não ajudar a pobre velhinha, além de egoísta, você se torna omisso.
 Há o egoísmo normal, onde cada um assumi a responsabilidade por si, por seu bem-estar e pela solução de suas necessidades básicas; e há o egoísmo mau, patológico, próprio da pessoa que não demonstra cuidado pelo outro. Esta não pensa primeiro em si, mas apenas em si. Egoísmo e egocentrismo podem ser parecidos, mas não são a mesma coisa. Egocentrismo é inerente. Todos nós nascemos voltados para o próprio umbigo, ao passo que o egoísmo vem no decorrer do crescimento, quando identificamos a existência do outro. Quando crianças, temos um brinquedo novo e não emprestamos a ninguém, mas queremos os dos outros. Já quando adultos contabilizamos nossos gastos enquanto alguém a nossa frente está com “as mãos abanando”. Normal.
Nenhuma ação humana é inteiramente desinteressada. Nem o altruísmo. É o impulso egoístico que move a mão para que o interesse coletivo seja realizado. Provavelmente seja por isso que a vida lembre a imagem de uma moeda girando em torno de si mesma. Com suas duas faces, nesse caso: egoísmo e altruísmo. Ambas rodopiam entre si, oscilam, se misturam, se fundem num só. Algumas vezes sai cara: julgamos ser eternos, centramos nossas aspirações em nós mesmos. Outras vezes sai coroa: amadurecemos e passamos a enxergar que não se vive apenas ao olhar do umbigo, e sim para uma entidade muito maior: a humanidade à qual pertencemos.  Todos precisam de todos, do início ao fim de cada vida na Terra.

20/04/2011

Não querer...

                     “A renúncia é a libertação. Não querer é poder.” (Fernando Pessoa)



Me desapego e me apego à coisas, pensamentos e pessoas. Estranho seria se não levasse essa idéia comigo. Entre os dois, para mim, é mais difícil me apegar, pois pouquíssimas coisas, pensamentos e pessoas me despertam esse sentimento. Chego até demorar a me desapegar. Porém, de alguma forma é mais “fácil” e quando me desapego é para deixar para trás. O vento leva para bem, bem longe. O desapego é tão... óbvio. Talvez, porque o óbvio passe sem me chamar atenção - às vezes. Certamente, esse conceito: “viver em desapego” é um dos mais necessários quando quero mudar de rumo. Sempre anseio em mudar, mas certas vezes esqueço ou, simplesmente, não quero deixar para trás o inútil. É tão importante, desapegar, porém é um dos pontos de vista mais árduos de ser empregado. Pessoalmente, tinha uma posição equivocada sobre o que possa ser realmente o desapego. Achava que havia de me desmanchar de tudo que significasse material e me dedicar unicamente ao lado espiritual. Errado. Isso é coisa de profeta, de quem ainda não percebeu que somos 50% humano e 50% espírito. Espírito é o que somos. Humanos é o que estamos.
Não posso viver em extremos. Nem tanto desapego e nem muito ao apego. Portanto, realizar meu desapego significa dizer que me situo no meu centro. Tudo na vida é ligado ao equilíbrio e depende - exclusivamente - da maneira como aplico os meus conceitos diariamente. A vida é Causa e Consequência. Faço e recebo de volta, sempre. Sou, com minhas atitudes, o responsável pelo o que colho na minha horta da vida. Algumas colheitas, principalmente as incompreensíveis, são meus karmas, preciso aprender a aceitá-los para eliminá-los. Lutar contra eles significa prolongá-los em meus dias. Tudo o que mais se evidencia de desagradável, doloroso até, em minhas vidas, ressalto, é karma. Claro que, a esta regra há exceções, entretanto é um grande sinal para compreender tudo ao meu redor.
 As pessoas são reencontros. Raras as que, em minha vida, permanecem por anos a fio. Sem sofrer algum tipo de “abalo”. Finalmente, o desapego significa o início de minha liberdade. O fim de minha claustrofobia de valores e a oportunidade de me tornar efetivamente sabedor de quem/ o que sou. O senhor de meu destino.